Duas fotografias que eu gosto

Estas são duas  fotografias que eu gosto.

Uma das coisas que tento, enquanto fotógrafo de casamento, é manter a verdade das coisas. No entanto não é assunto fácil de fazer. A partir do momento em que se usa um meio para captar essas coisas, estas passam, de imediato, a reprodução e ficam sujeitas a todas as distorções que este meio, entre uma realidade e uma cópia, aplica ao resultado. Este resultado é o que vulgarmente chamamos uma fotografia.

É aqui que as coisas podem sofrer bastantes alterações conforme o desejo, o gosto e o saber fazer de quem se encarrega do processo. Desde a escolha da lente, da característica da máquina fotográfica que se usa, do ângulo que se escolheu para a toma de vista e dos elementos que foram eleitos para participar na composição final como podemos, no final, afirmar que fomos fieis ao acontecimento?

Quem gosta de cinema sabe que se usam uma série de truques visuais para dar a carga dramática que se pretende. Muitas vezes basta uma pequena diferença do ângulo em que se filmou para a mesma cena poder ter uma leitura mais cómica, trágica ou até de terror. Os amantes das séries de terror conhecem bem aquelas cenas filmadas de baixo para cima com uma iluminação muito contrastada dando à personagem aquele aspecto de medo que todos conhecemos. Mas uma reportagem de um dia de casamento não pretende, até pelo seu caracter de não encenado, ter como resultado final uma série de fotografias que lembrem tais momentos de arrepio cinéfilo.

Volto, no entanto, à questão. Como é que colocando o nosso gosto, ou aquilo que normalmente chamamos de estilo do fotógrafo, não vamos alterar a leitura dos vários momentos que vão sendo fotografados ao longo do dia? Na minha opinião alteramos sempre. Basta o que referi sobre os instrumentos que usamos para fazer o processo fotográfico. Basta decidirmos que tipo de exposição vamos usar para tal parte do acontecimento. Basta que a escolha da lente possa aumentar ou diminuir a noção do espaço onde o acontecimento tem lugar. Mas desde que saibamos que estamos a alterar o resultado visual daquele momento e que o façamos para o realçar, lhe dar a importância devida e que é para o bem da verdade do que ali se acabou de passar, então, essas, chamemos, distorções são mais do que bem vindas.

Estas duas fotografias de que gosto muito da Filipa só aparentemente o são da Filipa. Podemos não saber quem são os outros personagens que, desfocados, de costas, ou em perfeita confusão, mas sabemos que são importantes para a figura central das mesmas e lhe dão, ao mesmo tempo, suporte emocional e afectivo que se projecta em cada uma delas. O olhar para o pai antes do último percurso até ao sim ou submergida em quem a ama, transformados em quase nuvens em dia de vento pela minha lente fotográfica, faz-nos saber que a Filipa não está só, que ama e que a amam e que a forma como escolhi mostrar  está em profundo respeito à verdade dos momentos.

Por isso, são duas fotografias que eu gosto….muito.

Texto e Fotos: Fernando Colaço

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