O imprevisto num dia de casamento

Quando parto para o meu dia de fotógrafo de casamento escolhido tento ir, sempre, como me ensinou um professor, como se fosse para os exames: vazio. Quanto mais vazia a minha cabeça for mais aberto vou ficar para o que me aparecer pela frente e melhor vou reagir no uso das minhas lentes e das minhas máquinas fotográficas. Não pensar no que vou fazer implica não imaginar como vai ficar algo que ainda não aconteceu. Deixar a cabeça vazia vai deixar-me receber sem questionar nem esperar e, assim, nunca forçar na minha direcção algo que devo seguir e reagir o mais em cima do acontecimento, do espaço, da luz que lá irá estar e não a uma espécie de argumento que imaginei e que, de certeza, não pertencerá àquele casamento, àqueles noivos, àquela Igreja, naquela Quinta ou Quintal da família.

É claro que existe uma coisa que não vou poder levar vazio na minha cabeça. Não vou poder esquecer tudo o que a minha cabeça, o meu corpo, porque o corpo e todas as outras partes dele também fazem fotografias  e às vezes antes da dita, a cabeça, ter tempo de reagir. Esta é a parte mais importante que devo carregar antes de partir: tudo o que me permitiu fazer as fotografias que, antes deste dia, pude produzir. Esta memória que não está ali, sempre presente, mas que aparece como que por magia quando é precisa, esta é que tenho que carregar e é da mesma importância que o meu saco com todas as minhas ferramentas para o dia, pertence a todas as experiências, soluções, falhas, tentativas, sucessos que permitiram as fotografias que os meus clientes têm levado consigo ao longo do tempo.

É espantoso o que esta memória, vazia, pode fazer durante o dia do casamento.  É ela que me vai guiar  ao longo do extenso dia, em vários espaços, na casa do noivo, da noiva, no local da cerimónia e da festa avisado-me a tempo, detectando as diferenças e antecipando trajectos. Podemos pensar que com o tempo todos os casamentos são iguais. É verdade. Em estrutura. Mas como tudo o que é de natureza humana é nos detalhes que vai, sempre, estar a diferença. E para estar atento a estas diferenças preciso de umas vozinhas que não ouço mas que devem lá estar porque quando faço a selecção das fotografias efectuadas durante o dia vou encontrando todas essas diferenças que, aparentemente, não estavam ali á minha frente a dizer eu, eu, oooh…aqui.

Por ir de cabeça vazia mas de memória pronta a disparar como alarme activado por mosca no campo do infravermelho é que fiz a fotografia que vos mostro. O centro de atenção, no momento, eram as meninas que levavam as alianças mas , de repente, o canto do meu olho nota algo no ar. Olho e vejo o noivo a baixar a cara mas estou do lado oposto e mau angulo para a tomada de vista. Um movimento rápido para a minha esquerda já com a máquina fotográfica no olho, chego a tempo para duas fotografias. Uma é esta. Podia ter falhado se parasse para pensar o que fazer. Não o fiz, deixei que qualquer outra coisa que não explico, nem interessa muito, resolvesse o problema. Parece, também, que é essa coisa que me faz gostar muito disto. Fotografar casamentos…pois.

Ah… São a Filipa e João…voltaremos a eles um dia destes.

Texto e Fotos: Fernando Colaço

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