O improviso do fotógrafo de casamentos

   Por feitio não gosto das coisas demasiado programadas. Num tempo já ido, o dia a dia na minha profissão era passado a interpretar, e passar para fotografia, esboços a serem seguidos à risca. Tinha a sua graça porque colocava em jogo a minha capacidade técnica no conhecimento dos materiais, da incidências das luzes, se duras ou suaves, disfarçar reflexos fortes ou fazê-los desenhar para evidenciar a transparência, a leveza ou simplesmente para ficar mais bonito aos olhos.

   O problema é que deixava pouco espaço à minha natureza de português de Portugal: improvisar. Poucas oportunidades me davam a possibilidade de ver, reagir e resolver. Por isso, para o fim dessa fase a fotografia já não era um prazer. Era um trabalho. As coisas, a vida, o país e o mundo encarregaram-se de me levar a um casamento. Por mero acaso. E como improvisei. Naquele dia, ou melhor, alguns dias depois, porque nesse dia nem me dei conta do que realmente se tinha passado, ficou decido, imperativamente, que dali para a frente eu teria que ser fotógrafo de casamento. Ter à minha frente tanta coisa a acontecer e eu poder, sem descritivo na mão, decidir o que vai sair como fotografia, de que ângulo, em que momento, com qual enquadramento ou que lente é melhor para isso ou tudo ao contrário.

   Não se pense que é à balda. Não é. Nem pode ser. Mas é exactamente essa liberdade organizada que me dá a energia necessária a partir do primeiro click, em dia de cobertura de casamento, e me faz chegar ao fim sempre com a sensação de missão cumprida. A fotografia da Maria nem estava para existir. A Maria agiu, o fotógrafo reagiu e a fotografia aconteceu. Improviso.

Texto e foto: Fernando Colaço

1994

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