A noiva e o último detalhe

Como fotógrafo de casamento tenho o privilégio de, numa das etapas do dia, estar rodeado de mulheres e das suas  pequenas, grandes, diferenças dos homens. Pelo menos, e na parte que interessa aqui, no que diz respeito aos detalhes na preparação para o grande momento que é a cerimónia.

Quando chego a casa da noiva começo a fazer a socialização sempre necessária ao fotógrafo de casamento para, por um lado, se integrar e, por outro, mostrar subtilmente, a quem o rodeia, a não lhe darem importância nenhuma. Não sei bem porquê começo quase sempre, e porque temos que começar de alguma maneira, então querida noiva já está nervosa não senhor nem um bocadinho estou com a maior das calmas. É engraçado que se apostasse ganhava sempre com a resposta e, a seguir, com a minha previsão: espere até chegar a hora de enfrentar o belo vestido pendurado, ainda, em cabide aconchegado.

É claro que o frenesim começa, os olhos perdem controlo com tantas atenções e pouco tempo, a boca deixa de saber sorrir, pelo menos como fotografo gosta, nada parece pronto, mães, madrinhas, irmãs, primas e amigas entram em pequenos pânicos  e esmeradas atenções e o fotógrafo de casamento fica nas sete quintas em manancial, chamamos nós, de momentos. Por vezes, apenas, pequenos gestos. A maioria, irrepetíveis. E esses dão-me particular prazer captar.

Texto e foto: Fernando Colaço

Noiva pronta pelo fotografado casamento Fernando Colaço

Share This:

Leave a Comment

  • (will not be published)

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

A primeira dança, depois de casados

O dia de casamento é uma sucessão de pequenos rituais e momentos simbólicos. Por isso se comemora. A primeira dança é um dos últimos. Pela primeira vez depois da cerimónia que liga os dois elementos do casal perante oficiante que, como tal, oficializa perante o estado, a sociedade, as famílias, os amigos e, principalmente, entre os dois o compromisso de vida junta com tudo o que isso implica  nos caminhos do tempo. Pela primeira vez o casal junta-se perante convidados e, simbolicamente, abre o baile, início da diversão e parte final das partes do dia.

Do ponto de vista do fotógrafo de casamento o registo é importante e de grande responsabilidade. Toda a sua técnica e capacidade de resposta tem que ser posta em acção. Estudo do espaço, da luz existente para saber o que fazer e, principalmente reagir a algo que não sabe como vai sair. Como é que o casal vai interagir um com o outro de modo a dar-lhe uma fotografia para lá do simples registo. É, garanto-vos uma luta contra o inespectável, contra o movimento impossível de predizer e, da minha parte o mais importante, que aqueles dois rostos no momento certo me construam a harmonia que sempre persigo.

Não tenho pejo em afirmar que durante todo o dia de momentos que me aparecem sem que espere e que com alguma eficácia vou registando, a primeira dança é o momento do vamos ver o que é que isto vai dar hoje. A perseguição do rodopiar rodopiando também, os rostos que não há meio de se me oferecerem no ponto certo, a pouca luz que não me deixa reagir a tempo ou casal que, quando menos espero, já está. Não vou dizer que é o meu momento de desespero porque não seria verdade. Eu gosto disso. De não ter nenhum controlo e conseguir fazê-lo. E, até hoje, no mostrar do album , a fotografia escolhida da primeira dança tem feito aquele sorriso nos olhos dos protagonistas dessa primeira dança do novo princípio das suas vidas. Eu, naquele momento de entrega do album, só tenho olhos para os olhos deles para ver se os meus olhos viram, naqueles momentos, como deveriam ver. E os meus olhos acabam por ficar, contentes, muito.

Texto e foto: Fernando Colaço

 

Share This:

Leave a Comment

  • (will not be published)

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Também é uma fotografia de casamento

   Estas mãos não são da noiva nem o pescoço é do noivo. Mas é num casamento. E se pedida não sairia tão perfeita. Daí poder ser filha, a foto, do método que me dá mais segurança para fazer uma cobertura de verdade: o foto jornalismo de casamento. Não que me queira intitular de foto jornalista, daqueles dos jornais e revistas que nos trazem a verdade crua da vida em locais longe do nosso e que, por vezes, nos fazem repensar sobre que mundo é este que nos rodeia. Esses que, por vezes, com o risco da vida, chegam onde já ninguém vai para contar, a quem cá está, que afinal existem coisas que são bem diferentes do nosso florido quintal, têm todo o meu respeito e admiração

  Digamos que em homenagem, que me merecem, me apodero do seu método de não fazer parte da acção e como observador a distância perto o suficiente para não ser já parte ou longe o suficiente para não perder contexto, tento ser atento e lesto o suficiente para, naquele evento, reparar nas coisas que mais ninguém está, ali, com intenção de reparar, usar o rectângulo que se me oferece ao olho direito para preservar num outro espaço e num tempo que se pretende com alguma eternidade, a foto, aquela gota de realidade apanhada a ser preservada noutra textura, dimensão, cores ou tons mas que faz o interprete reviver  e ao mero observador, se resultou, algum deleite.

  De facto e pensando bem sou uma espécie de ladrão de momentos que guardo em saco de tesouros que, depois, vou devolvendo, qual Robin dos Bosques ou o nosso Zé do Telhado, a quem delas vai precisar para, de vez em vez, reviver uma história que foi a sua ou a quem dela, também, fez parte. Como estas belas mãos, de certeza, sinceras em pescoço que escolheram. Enquanto for assim continuarei a ser, com grande gosto, fotógrafo de casamento.

Texto e foto: Fernando Colaço

De um casamento na Quinta da Serra em Sintra

Share This:

Leave a Comment

  • (will not be published)

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.