O improviso do fotógrafo de casamentos

   Por feitio não gosto das coisas demasiado programadas. Num tempo já ido, o dia a dia na minha profissão era passado a interpretar, e passar para fotografia, esboços a serem seguidos à risca. Tinha a sua graça porque colocava em jogo a minha capacidade técnica no conhecimento dos materiais, da incidências das luzes, se duras ou suaves, disfarçar reflexos fortes ou fazê-los desenhar para evidenciar a transparência, a leveza ou simplesmente para ficar mais bonito aos olhos.

   O problema é que deixava pouco espaço à minha natureza de português de Portugal: improvisar. Poucas oportunidades me davam a possibilidade de ver, reagir e resolver. Por isso, para o fim dessa fase a fotografia já não era um prazer. Era um trabalho. As coisas, a vida, o país e o mundo encarregaram-se de me levar a um casamento. Por mero acaso. E como improvisei. Naquele dia, ou melhor, alguns dias depois, porque nesse dia nem me dei conta do que realmente se tinha passado, ficou decido, imperativamente, que dali para a frente eu teria que ser fotógrafo de casamento. Ter à minha frente tanta coisa a acontecer e eu poder, sem descritivo na mão, decidir o que vai sair como fotografia, de que ângulo, em que momento, com qual enquadramento ou que lente é melhor para isso ou tudo ao contrário.

   Não se pense que é à balda. Não é. Nem pode ser. Mas é exactamente essa liberdade organizada que me dá a energia necessária a partir do primeiro click, em dia de cobertura de casamento, e me faz chegar ao fim sempre com a sensação de missão cumprida. A fotografia da Maria nem estava para existir. A Maria agiu, o fotógrafo reagiu e a fotografia aconteceu. Improviso.

Texto e foto: Fernando Colaço

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Uma fotografia de casamento como marca de memória

   Enquanto fotógrafo, no processo de um dia de casamento, tento nunca interferir no que se vai passando. É claro que as situações não variam muito e com o tempo qualquer fotógrafo profissional, de qualquer área, vai como que adivinhando o que se vai passar a seguir. É o que na gíria do jornalismo se chama tarimba. Ainda me lembram as minhas atitudes de barata tonta quando comecei, nas lides dos casamentos, sem saber ao certo onde e como deveria ser o melhor ponto de vista. Com o tempo damos por descobrir fotografias que fazemos que por mais nos perguntemos como foi que escolhemos aquele angulo, não o sabemos. Eu tenho que o nosso corpo, no todo e por si, vai ganhando uma memória e, por vezes, reage antes da cabeça, ou a razão, pensar no assunto.

   Foi o caso desta foto. Não foi por acaso porque além de bem enquadrada está bem composta e, a meu ver, no ângulo certo para mostrar o que é essencial além do tempo da transformação em fotografia que me parece no momento: uma menina dedicada a ajudar a mãe, que se vai casar, embora não soubesse muito bem o que isso seria. No entanto esse laço forte entre filha e mãe está nesta fotografia. Atitude de menina que diligentemente, e de vontade própria, ajuda a mãe que, embevecida, não desejava melhor ajuda.

   Ás tantas o processo de fotografar um casamento pode tornar-se apenas gíria a fotógrafo desatento. Mas são momentos como este que vão fazendo a diferença e justificam que, sempre com gosto redobrado, sinto que a minha presença é importante do dia do casamento de quem já me escolheu e de quem o virá a fazer no futuro. Por mim, sem dúvida nenhuma.

Texto e foto: Fernando Colaço

 

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Revisitar uma sessão de namoro em Lisboa

  Ás vezes dá-me para rever as coisas do atrasado para ver se me sinto ter evoluído no meu processo de trabalho, diferença nas máquinas fotográficas, lentes que entretanto fui alterando e deparei com esta sessão de namoro em Lisboa com a Vanessa e o Bruno. Foi um desafio da parte deles que na altura, foi muito no início da minha actividade como fotógrafo de casamento, aceitei com um misto de desafio e já estou aver que quem vai dar as cartas são eles. E deram. E deram muito bem. Nem fazem ideia do bem que me fizeram na forma como a partir daí interiorizei a minha forma de fotografar um casal em vias de dar o sim um dia destes e mesmo o dia do sim.

  A ideia era que os fotografasse sem direcção alguma a não ser a decisão do local. Isso faz do fotógrafo um improvisador como músico de jazz a quem é dado o tema mas que nunca sabemos as voltas que vai dar até à última nota. Descobri, ou melhor, reforcei, que é esse o meu meio natural a fotografar. Definir rápidamente o ponto de vista, decidir o enquadramento e harmonizar em tempo real a composição. Três elementos parecidos mas onde cada um por si acaba por decidir se fica foto ou não. E fazer isso à velocidade do tempo define-me como fotógrafo. Não tenho a paciência do fotógrafo de paisagem que pode ficar, tal sereno observador, o tempo que for preciso para o clique, único e preciso. Para mim, cuja paisagem está nas pessoas, as pequenas reacções de olhos, sorrisos, ângulos de cara, rotações de tronco, o escangalhar por rir ou a contenção do tímido são os elementos que me motivam. E a Vanessa e  o Bruno motivaram. E de que maneira.

Texto e fotos: Fernando Colaço

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